sábado, 23 de outubro de 2010

Capítulo 1

A janela estava entreaberta, o gélido ar invadia o cômodo, balançava as cortinas num movimento uniforme: de um lado para outro. Apesar de ser noite, o imenso azul escuro do céu não impedia a luminosidade das estrelas. Mas não eram as estrelas que chamavam a atenção. Uma bola redonda e enorme brilhava lá no alto, dando a sensação de ser observado o todo tempo. Era lua cheia, uma noite agradável. A garota observava a circunferência enorme, o vento rebatia em seu rosto um ar gelado e refrescante, fazendo seus cabelos balançarem levemente. Contudo, não era a lua nem as estrelas que a faziam sonhar...


Ele é lindo.

Pensava ela, quase que constantemente. Ela estava apaixonada, sabia. Percebera isso quando, certa vez ele a convidou para ir na sorveteria. O dia sugeria um filme em casa, embaixo das cobertas. Mas ele insistiu na sorveteria. Eram três da tarde quando ele chegou a casa dela, encharcado, com um guarda - chuva nada confiável. O
cabelo dele pingava de uma forma charmosa; e aquele sorriso a fez sentir algo estranho na barriga.

São as borboletas!

Pensou ela, certa vez, quando era pequena, ela perguntou depois do almoço:
- Mãe, o que é o amor?
A mãe de Jude sorriu, pegou a garota no colo; mexeu em seu cabelo carinhosamente e respondeu:
- Querida, amor é a coisa mais linda do mundo inteiro.
Jude imaginou a "coisa mais linda do mundo inteiro", imaginou uma circunferência brilhosa, uma pseudo - lua talvez. A lua era linda, e o amor era a coisa mais linda do mundo inteiro. Olhou para a mãe, e questionou novamente:
- E onde está o amor, mamãe?
- O amor está em toda a parte pequena Jude. Vai encontrá - lo quando sentir as borboletas no estômago.
Jude com sua imaginação infantil, visualizou três borboletas batendo as asas em sua barriga, uma azul e brilhosa - a mais bela - pensou ela; e as outras duas amarelas. A mãe de Jude deu - lhe um beijo na testa e deixou a menina no chão.

Ele estava com uma camiseta lilás, que de tão encharcada parecia transparente. Ela zombateiramente perguntou:
- Vamos pra sorveteria então?

Ele deu outro sorriso. As borboletas!

Ele a puxou pelo braço esquerdo, e os dois tomaram um banho de chuva. Os pingos eram gelados, mas ele não largava a mão de Jude. Ela estava segura. Ele tinha brilho nos olhos, e aquela voz macia que a fazia respirar calmamente. Ela estava segura. Ele tinha o dom de fazer ela sentir - se bem. De transformar as coisas insossas em alegria pura. Ele era mágico.

Tirando a garota de seus devaneios o telefone tocava pela terceira vez. Destruindo todo o silêncio da casa, do quarto. Jude atendeu :

- Jude!

Jude conhecia aquela voz, era sua amiga Raybeka.

- Oi! O que aconteceu?

Uma lágrima saiu do rosto delicado de Jude, quando ela desligou o telefone.


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Amanhã

O que será o "amanhã" se não uma simples palavra inexistente. O amanhã nunca existiu, o que ainda existe são os planos, os sonhos, as vontades. E que "amanhã" não existiram mais. Porque "amanhã" será hoje. E hoje será ontem. E digo que "amanhã" você irá embora, não de perto de mim; mas de mim. Mas eu disse isso ontem. Porque ontem era hoje. O "amanhã" nunca chega, porque ele se transforma em hoje, em um dia. E ontem em dois. Amanhã eu quero esquecer você porque hoje eu não consigo. Amanhã.

Entendimento

Por que não deu certo? Vez ou outra me pergunto, sem resposta aderente. Você era carinhoso, eu era compreensiva. Nossas conversas eram infinitas, demais talvez. Vivíamos assim, nessa oscilação; um dia bem, um dia não. Esse impasse cansou. Exaustos desistimos. O entendimento foi o fim, e mais nada.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Aproximação

Acordei com o pé esquerdo hoje, literalmente, lembro ter dado risada ao primeiro passo. Minhas inspirações estão fracas. Meu coração exausto. Mas o que posso fazer, se não consigo ficar longe de você? Você me dá aquela paz, que eu jamais encontrei antes. Você causa aquele arrepio que desce por toda a espinha dorsal. Contraditoriamente, você me deixa triste, insegura. Hora medrosa, hora corajosa. Ou isto ou aquilo. Minha cabeça dá voltas sentido horário, anti - horário. Você se aproximou lentamente e isso foi fatal.

O encanto do desencanto

Perdi as contas. Juro. No começo eu até contava, até virar rotina e eu cansar de tanto contar. Percebi que as somas só servem pra frustrar. Quantas vezes eu me desencantei com você, com suas ações infantis. Quantas vezes você me decepcionou num gesto imaturo, numa palavra mal pensada. Quantas vezes eu fugi de você, só pra eu não me desencantar de novo. Quantas vezes eu enxerguei seu interior preferindo fechar os olhos. Quantas vezes você me encantou, com um simples sorriso, com um olhar carregado de sentido, com um abraço apertado. Quantas vezes eu me apaixonei por você, quantas vezes eu ainda vou me apaixonar… Você me encanta garoto e ao mesmo tempo me desencanta. E esse joguinho - encanta, desencanta - me deixa confusa. Fico oscilando entre te querer e fugir de você. Minha sanidade é temporária, logo faço uma loucura. Eu desisto de você se você desistir de mim; de acordo?
Infelizmente a verdade apareceu. As notícias não são boas.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Destrutível

Era segunda, terceira vez que ela sentia a dor. Ela já conhecia, sabia que viriam as lágrimas, a sensação de abandono, o medo. Tudo iria, apenas, se repetir. Ela gostava dele, gostava de uma forma inexplicável. Pensava nele, involuntariamente, o tempo todo. Talvez fosse a carência de pai, ou talvez fosse amor. Ele era diferente, de forma singular. Causava sensações diversas. Ela corajosamente rebelou - se. Disse a ele tudo o que sentia, e como sentia. Relatou sonhos, descreveu segredos. Ele aos poucos parecia interessado. Seu coração ingênuo acreditou, de corpo e alma. Suas emoções triplicaram, sua razão desaparecera. Ela passou de garota forte para frágil em semanas. Ela mudara, de forma monstruosa, tornou - se dependente dele. Ela gostava do jeito que doía, de modo ilusório, o coração. Ele a decepcionara cruelmente. No fundo ela sabia, mas não admitia, que ela era a culpada. Construiu castelos incomensuráveis, castelos de sonhos. Esperou o melhor do pior.

Tudo começou no verão, e terminou num sábado de primavera. Ela encontrava - se sozinha em casa. Estava assistindo um filme infantil, desses que marcam a infância. Lembrara - se de ter comentado com ele sobre o filme, de que iriam assistir juntos. Ela o convidou, ele deu uma desculpa barata: compromisso com a família. Ele encontrava - se ocupado, com uma menina chamada Jéssica. Jéssica era uma menina burra, porém pegável. O filme desenrolou - se cautelosamente, ela sentia falta dele. Queria ouvir aquela voz, admirar aquele sorriso, queria ele. E cada cena, trilha sonora, efeito especial ela desejava ele perto. Seja pra comentar ou apenas observar a existência dele. Ele continuava com Jéssica, dessa vez mais perto dela, do que antes. Trocaram carícias, entrelaçaram - se num beijo. Foi uma tarde maravilhosa, para ele. Ela limitava - se ao espaço retangular do sofá, e à uma tevê vinte e nove polegadas. Comia pipoca e pensava nele. Ele chegou sete horas em casa, aproximadamente. Ela o esperou por horas no mensseger, ela viu aquele contato aparecer online. Ficou contente subitamente. Ela disse: "oi", e ele também. Ela lamentou ele não ter assistido o filme com ela, iriam se divertir. Ele disse que havia saído. Ela erroneamente perguntou aonde ele tinha ido, já que duvidara do que ele havia dito antes. Ele contou, tudo. Ela sentiu a respiração pesada, de ímpeto não acreditara; releu a mensagem, sofreu. Seu coração doía, pulsava de forma ruidosa. Pensou em chorar, patético demais. Mas ela queria. Controlou - se. Camuflou - se no descaso, na indiferença; em vão. Não passou cinco minutos e as palavras saíram, como um grito ao vento. As palavras saíram desmazeladas. Arrependeu -se. Ela gostava muito dele. Devia admitir. Precisava dele, perto, e mesmo longe. Assumiu sua dor pra si, antes de tudo, e depois pra ele. Ele falou palavras de consolo, disse que era bobo, e que iria mudar. Ela bondosamente tentou acreditar, com seu coração afável. Mas aquela dor latejava, e implorava por descanso.

Depois, ela entristecia - se com pouco. Com palavras sem maldade, com expressões grotescas. Ele estipulava sua presença - desde o amanhecer até o anoitecer - de maneira contingente. Ela escutava músicas melancólicas antes de dormir. Sentia nostalgia o tempo todo. E uma sensação de déjà vu, implorou aos céus por amnésia. Queria, inevitavelmente, esquecê - lo.