Era segunda, terceira vez que ela sentia a dor. Ela já conhecia, sabia que viriam as lágrimas, a sensação de abandono, o medo. Tudo iria, apenas, se repetir. Ela gostava dele, gostava de uma forma inexplicável. Pensava nele, involuntariamente, o tempo todo. Talvez fosse a carência de pai, ou talvez fosse amor. Ele era diferente, de forma singular. Causava sensações diversas. Ela corajosamente rebelou - se. Disse a ele tudo o que sentia, e como sentia. Relatou sonhos, descreveu segredos. Ele aos poucos parecia interessado. Seu coração ingênuo acreditou, de corpo e alma. Suas emoções triplicaram, sua razão desaparecera. Ela passou de garota forte para frágil em semanas. Ela mudara, de forma monstruosa, tornou - se dependente dele. Ela gostava do jeito que doía, de modo ilusório, o coração. Ele a decepcionara cruelmente. No fundo ela sabia, mas não admitia, que ela era a culpada. Construiu castelos incomensuráveis, castelos de sonhos. Esperou o melhor do pior.
Tudo começou no verão, e terminou num sábado de primavera. Ela encontrava - se sozinha em casa. Estava assistindo um filme infantil, desses que marcam a infância. Lembrara - se de ter comentado com ele sobre o filme, de que iriam assistir juntos. Ela o convidou, ele deu uma desculpa barata: compromisso com a família. Ele encontrava - se ocupado, com uma menina chamada Jéssica. Jéssica era uma menina burra, porém pegável. O filme desenrolou - se cautelosamente, ela sentia falta dele. Queria ouvir aquela voz, admirar aquele sorriso, queria ele. E cada cena, trilha sonora, efeito especial ela desejava ele perto. Seja pra comentar ou apenas observar a existência dele. Ele continuava com Jéssica, dessa vez mais perto dela, do que antes. Trocaram carícias, entrelaçaram - se num beijo. Foi uma tarde maravilhosa, para ele. Ela limitava - se ao espaço retangular do sofá, e à uma tevê vinte e nove polegadas. Comia pipoca e pensava nele. Ele chegou sete horas em casa, aproximadamente. Ela o esperou por horas no mensseger, ela viu aquele contato aparecer online. Ficou contente subitamente. Ela disse: "oi", e ele também. Ela lamentou ele não ter assistido o filme com ela, iriam se divertir. Ele disse que havia saído. Ela erroneamente perguntou aonde ele tinha ido, já que duvidara do que ele havia dito antes. Ele contou, tudo. Ela sentiu a respiração pesada, de ímpeto não acreditara; releu a mensagem, sofreu. Seu coração doía, pulsava de forma ruidosa. Pensou em chorar, patético demais. Mas ela queria. Controlou - se. Camuflou - se no descaso, na indiferença; em vão. Não passou cinco minutos e as palavras saíram, como um grito ao vento. As palavras saíram desmazeladas. Arrependeu -se. Ela gostava muito dele. Devia admitir. Precisava dele, perto, e mesmo longe. Assumiu sua dor pra si, antes de tudo, e depois pra ele. Ele falou palavras de consolo, disse que era bobo, e que iria mudar. Ela bondosamente tentou acreditar, com seu coração afável. Mas aquela dor latejava, e implorava por descanso.
Depois, ela entristecia - se com pouco. Com palavras sem maldade, com expressões grotescas. Ele estipulava sua presença - desde o amanhecer até o anoitecer - de maneira contingente. Ela escutava músicas melancólicas antes de dormir. Sentia nostalgia o tempo todo. E uma sensação de déjà vu, implorou aos céus por amnésia. Queria, inevitavelmente, esquecê - lo.
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