quarta-feira, 16 de maio de 2012

Meu amigo Manuel

(...) e de repente o mundo sorriu para eles. 
Fechou os olhos e viu Pasárgada.

Ele só queria mais um pôr do sol, ela só queria que o dia nunca acabasse. A realidade é que aquilo era um sonho. Ele parecia a representação da perfeição através dos seus defeitos. Ela o via pela alma. Naquele lugar tão puro e vivo encontrava - se Pasárgada. O lugar das delícias e dos amores. Ela o chamava de amor, mas não importava, pois ele sabia. Ele a chamava de minha. Na estante alguns romances velhos, na chaleira água quente, precisava haver café. Não era necessário o mar, nem sol alto. Podia ser chuva e cobertor. Mas o sol escolheu os dois. A música era numa frequência baixa de blues, a casa tinha cheiro de flores de campo. Era pequena e singela. Trazia nas paredes as lembranças dos tempos mais gentis. Havia amor.

A varanda era minúscula, mas cabia os dois. Foram tantas tardes passadas ali compartilhando memórias que na pequena reforma que haviam feito, ninguém se atreveu a mexer nela. Todos os dias antes das seis ele caminhava perdido em pensamentos. Depois das seis o café estava na mesa, e a casa distribuía o aroma do pó, como que por prazer. Ela o chamava com sorriso, ele vinha com passos lentos e voz serena. Sentavam - se a mesa, os dois, comiam biscoitos caseiros e eram felizes um pouco mais todos os dias. Certa vez pensaram em adotar um cachorro, porém a ideia terminou em risos. Os vizinhos comentavam asneiras maledicentes porque os dois não tinham filhos. Por enquanto cuidavam um do outro, e isso bastava. Ela sentava no sofá para assistir novela, ele deitava em seu colo, para vê - la sorrir, apenas. Vez por outra ela massageava o cabelo farfalhado dele, somente para indicar que estava ali, perto. Ele retribuía com beijinhos doces. Ele trazia o silêncio, ela o riso fácil. Se completavam.
E Pasárgada não era distante. Era o gotejar da torneira velha. Era a teia de aranha que insistia em se formar na lavanderia. Era o banheiro encharcado depois que ele tomava banho. Era a comida com sal demais que ela fazia. Era a casa tão cheia de pequenos detalhes, deles dois. Pasárgada era os dois, juntos.


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