domingo, 26 de setembro de 2010

Ausência

É a terceira, quarta vez que tento escrever sobre ele. O que realmente foi difícil; não por eu estar magoada e ferida. Mas se fosse alguns dias antes eu relataria adjetivos, na maioria das vezes, tentaria esquecer os defeitos. Agora, pouco lembro das qualidades. Ele era como um pai pra mim. Um pai rigoroso, enérgico, teimoso, orgulhoso. Eu tinha orgulho dele, e fazia de tudo pra ele ter orgulho de mim. Eu o admirava. Tinha um respeito por ele, incomensurável. O título poderia ser escrito de outra forma: "A última viagem", seria maravilhoso relembrar sorrisos, relatar memórias e eventos. Porém nada de verdadeiro seria escrito. Gargalhadas ruidosas deram lugar aos soluços, diversão deu lugar ao estresse. Dedicação foi substituída por decepção. Não são só de atletas que se constrói um time. Antes mesmo da UNIÃO, respeito e superação é necessário um técnico. Não me refiro ao gênero masculino, tanto faz homem ou mulher. Essa pessoa precisa confiar no time, gostar do time. Um treinador não é aquele que diz que você é capaz; ele é aquele que te dá a possibilidade de ser capaz. Que confia em você, e não desiste de você. Nós jogamos, óbvio. Ele mostra o caminho. Suas ironias eram torturas, suas palavras venenos; que corroía aos poucos. Eu nunca acreditei que ele gostasse de mim. Mas ver aquele olhar sarcástico foi a pior das situações. Um time fragmentado ficou em segundo lugar. Pra alguns pouco vale uma medalha de "prata", para as dez vale muito. Não enfrentamos apenas as advesárias. Enfrentamos um turbilhão de sensações, estresse de convivência, comida ruim, fila pro banho; mas nada comparado a ausência. Ele disse que ia embora, e foi. Não duvidei nenhum segundo. Mas meu coração bobo e infantil guardava resquícios de esperança, ele iria voltar atrás ou então era um pesadelo dos piores. Não, as lágrimas eram reais. Eu precisava de um abraço, e ele queria ir embora. Um flashback surgiu na minha cabeça. Minha primeira viagem, a primeira vez que encostei naquela bola de volei, eu tremia dos pés à cabeça; mas ele estava lá do meu lado; gritando, nervoso, assustador. Mas ele estava lá... Todas as vezes que aquela bola me dava nós, a rede atrapalhava, ou a quadra diminuía de tamanho ele estava lá. Seja pra gritar ou reclamar. Nunca sofri com suas palavras, confesso que elas doíam, mas passavam logo, o que me estraçalhou foi sua ausência. Algumas falaram que era melhor, pra mim não. Ele me ensinou tudo o que eu sei, e muito mais. Não me importa quais foram seus métodos, não quero bancar a "puxa - saco", mas eu gostava dele. Me senti abandona, chorei sim e muito. Minha ultima viagem, a pior. Foi como se eu tivesse perdido mais um pai. Não quero parecer exagerada, todas sofreram de alguma forma. Não quero relembrar palavras, elas machucam são inúteis, não quero transmitir sensibilidade. Depois, acabei por precisar de todas, uma me fazia sorrir, outra me mostrava que não estava só, diretamente ou não, todas as dez foram INDISPENSÁVEIS. Do fim pouco sei; talvez o fim já tenha começado no próprio início, quando ele foi embora dizendo que não queria mais. Quando ele jogou todo o nosso esforço pelo ralo, quando ele esqueceu nossa dedicação, quando ele pisou no nosso respeito. Ele foi impulsivo, sabe - se o porque. Mas isso não importa. Desculpe meu jeito de contar tais acontecimentos, o fim foi difícil. Ainda tenho uma esperança errônea que tudo vai acabar bem. E que essa dor é passageira. Talvez o único fim seja o tempo. Não quero contar no que acredito que vai acontecer. Prefiro acreditar num final feliz. Ele era um pai pra mim, e como o verdadeiro foi embora.


Obrigada pela PRESENÇA das dez.

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