segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Laços

Conheci Diana da 1ª série do fundamental. Era minha primeira escola, eu tinha pavor de professor. Pouco lembro de como nos conhecemos, lembro que ficamos muito amigas. Eu almoçava na casa dela quase todos os dias, fazíamos trabalhos e lições juntas. Nós vestíamos as mesmas roupas, queríamos uma mala com rodinhas. Lembro que um dia indo pro ballet chegaram a pensar que éramos irmãs. Na segunda série resolvemos estudar a tarde, experiência desagradável, não deu certo. Voltamos pra manhã. Nossa amizade pouco mudou na 3ª, era sempre a mesma rotina. Segundas e quartas ballet, terça e quinta GRD. De segunda a sexta aula. Quando ela faltava aula eu ligava pra ela. Me recordo que um dia fui na avó dela, era uma chácara em Irineópolis, um ganso me perseguiu e todas as vezes que ela me chamava para ir junto eu recusava. Na 4ª série nos separaram de sala. Nossa amizade limitou - se aos encontros no ballet e apresentações. Agora ela tem namorado, namora faz um ano. Ela parece feliz, e eu fico tranquila com isso. Vez ou outra nos esbarramos na rua e dizemos um "oi" meio desajeitado. Um "olá" em movimento, andando para não se atrasar. Ela mora na mesma cidade, deve cursar alguma faculdade, pedagogia ou biologia. Foi com ela que brinquei de boneca, e de casinha. Na 5ª série conheci Morgana, ela era bonita, fazia sucesso entre os rapazes, morava numa chácara, saía antes da sala pra não perder o ônibus, pegava um rumo ao Mallon, longe à beça, chegava em casa uma hora da tarde, e em dias de chuva demorava mais. Um dia ela me convidou pra conhecer sua casa. Ela falava tanto de lá, eu curiosa aceitei. Ela dizia que era grande e tinha muitos lugares pra brincar. Tinha uma balança de pneu que eu adorava brincar. Às vezes provocávamos as galinhas e elas corriam atrás. Teve um dia que uma bem gordinha virou almoço, eu a vi morrer. Fiquei apavorada, mas ela foi pro estômago da mesma forma. Subíamos em araucárias gigantes. "Nunca olhe pra baixo" ela sempre dizia. Mimosa era uma vaca que me dava muito medo. Sempre preferia ficar do outro lado da cerca, eles produziam bolinhas de madeira. Sempre que eu ia lá, ajudava a ensacar tais cincunferências. Adorava passar os finais de semana lá, sentindo o cheiro de campo, subindo em árvores. Cheguei a pedir pra minha mãe vender nossa casa e comprar uma chácara, ela sorriu e disse que não. Morgana foi embora pro Reino Unido, conheceu vários lugares: Turquia - Istambul, Espanha -Ibiza , Grecia - Athenas, Italia - Valdagno, Inglaterra - Londres, Alemanha - Berlin. Foi com ela que aprendi a gostar do verde, e me apaixonar por cheiro de orvalho. Na 8ª série mudei de colégio, passei numa espécie de concurso pra estudantes, o nome era Provão. Passei em 1º lugar e ganhei bolsa de estudos. Conhecia algumas pessoas, mas não tinha intimidade com ninguém. No primeiro dia conheci Belarmina, na Educação Física ela perguntou meu nome e eu simpatizei com ela. Na aula de espanhol a professora mandou fazer trabalho ela mandou eu ir na casa dela. A partir de então eu ia até lá toda semana, sentei na frente dela, tínhamos muito em comum. Nossos assuntos eram sobre música e filmes e Harry Potter. Os livros que ela gostava me emprestava. Eu dormia lá quase todo final de semana, me sentia em casa. Jogávamos basquete e ela sempre me dava carona, ela era inteligente e me ensinava muitas coisas. Até eu apresentar um amigo meu a ela. Eles se gostaram e namoraram. Um dia brinquei que seria madrinha do casamento. Ela mora em Florianópolis, passou na Universidade Federal. Algumas vezes conversamos por e - mail. Nós fazíamos planos de morar juntas, estudar no mesmo lugar. Foi com ela que aprendi a assistir filme legendado e a escutar Nickelback. Sinto muita falta dela, se não foi a melhor talvez foi a mais importante. Constantina era parceira de viagens, nos tornamos amigas no volei. Na cidade mal nos encontrávamos, e pouco saíamos juntas, mas nas viagens éramos inseparáveis, cantávamos no chuveiro, ela me contava tudo. Viajar com ela tornou - se rotina, e sem ela as viagens eram sem graça. Jurema era louca, acabara de terminar relacionamento. Triste e magoada não sabia o que fazer. Ela era como uma irmã pra mim, uma irmã mais nova e inconsequente. Ela morava aqui em casa, eu ajudei ela e ela muito me ajudou. Vivemos aventuras adolescentes: delegacia, situações perigosas, bebedeiras, gargalhadas. Passei a escutar música sertaneja por um tempo. Sua presença era indispensável, ela me fazia chorar de tanto rir. Foi com ela que bati a moto. ela casou - se mora no litoral, às vezes vem me visitar ou conversamos por e - mail ou telefone. Sempre pede meus conselhos e manda um beijo pra minha mãe. Ela me ensinou a viver sem limites. Todas me ensinaram algo. Cada uma deixou um pouco de si e levou um pouco de mim. Lembro delas com todo o carinho. Amigos vem e vão. Deixam memórias maravilhosas as quais sempre lembro quando estou triste. Vez ou outra tenho vontade de voltar no tempo, viver de novo. Basta fechar os olhos. A vida é assim, pessoas se afastam outras se aproximam. Lembrarei sempre das aulas de ballet, das corridas no campo, das festas da 8ª série, das viagens pelo Paraná, e das loucuras de Jurema. Sempre tem aquele amigo louco, aquele certinho, o estressado, o mandão. São apenas memórias, laços invisíveis, laços eternos.

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