quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Gramática

Ela gostava de português, da mesma forma que ele gostava de video game. Ele ia bem em português. Ela sentava atrás dele, só pra ficar reparando nas curvas daquele cabelo, sinuosas e uniformes, que parecia vírgulas muito bem feitas. Ele preocupava - se em qual seria a nova piada que faria a turma toda rir; ele era infantil, ela sabia disso. Mas ela gostava das imbecilidades que ele cometia, entendia a necessidade que ele tinha em chamar a atenção. Ela gostava dele, ou talvez não, do jeito que ele era. Ela sempre foi bem nas matérias exatas: matemática, química, física. Teoria era coisa chata, tinha que pensar muito. Português era meio termo, hora literatura e seus escritores; outra hora gramática e tempos verbais. Eis uma coisa que não entrava na cabeça da garota, ela não sabia se, involuntariamente, era a culpa do cabelo do garoto da carteira a frente ou da professora que não conhecia tintura. Ficou desesperada quando a professora resolveu marcar avaliação. Prestar atenção em pretérito, futuro e presente; era difícil, quando se tinha curvas sinuosas e uniformes a sua frente. Seus pensamentos eram outros, faziam uma reta à frente, literalmente. Ela não se concentrava, dizia a si mesma: "Depois eu copio de alguém, tiro xerox". No dia da revisão foi o mais difícil, ele estava com uma camiseta lilás, ele ficava lindo com aquela camiseta. No fim da aula percebeu a gravidade da situação. Na rodinha da turma, falavam na maldita prova, ela compreendera nada. Pediu ajuda aos mais chegados, todos improvisaram uma desculpa: treino, dança, dentista, mercado; um chegou a dizer que ia na igreja. Ela fingiu descaso, mas estava aflita. Bomba em português sinônimo de uma semana sem computador. Sinônimos matéria fácil, e não tinha ninguém à frente dela que pudesse roubar a atenção. Ele vinha em passos lentos, desajeitado, com as calças lá embaixo, mostrando sua cueca de marca. Ela não conseguia disfarçar o nervosismo, sentia - se patética, ela deveria estar vermelha, será que todos haviam percebido? Ele disse que a ensinaria gramática. Ela aceitou. Na casa dela às quatro. Quatro e meia ele havia chegado, havia trocado a camiseta roxa e isso era bom. Eles se sentaram na mesa, e ele meio sem jeito começou a falar. Ele ensinava bem, mesmo sendo a pior das distrações, ele ensinava bem. No fim ele pediu um exemplo de todos os tempos verbais:
- Pretérito perfeito! Olhou para ela, esperando resposta.
- Eu te amei, desde a primeira vez que o vi. Respondeu, tentando uma declaração fajuta. Ele não prestou atenção apenas continuou.
- Certo. Pretérito imperfeito!
- Eu amava ele, mas ele não sabia. Disse ela com um sorriso, esperando reação do garoto. Reação a qual não apareceu.
- Isso! Pretérito mais que perfeito.
- Eu o amara antes mesmo de amar a mim mesma. Mais uma tentativa frustrada, o garoto só olhava pro caderno.
- Aham, certinho! Futuro do pretérito.
- Eu te amarei por toda a minha vida, e depois dela também.
- Ótimo, presente!
Ela ficou sem graça, olhou para ele. Implorou para que ele ouvisse, não apenas ouvisse; mas ouvisse e escutasse.
- Eu te amo!
Ele sorriu, disse que ela havia aprendido bem, e que era só ela revisar toda a matéria. Era dez na certa. Ela estava aliviada, mas ainda guardava aquele sentimento pra ela. Ele deu um beijo no rosto dela, despediu - se e foi embora. Deixando a garota com seus pensamentos gritantes, porém inaudíveis. Palavras incomunicáveis, ela falava e ele não ouvia. Era isso, e mais nada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário