Não que eu não seja feliz agora. Afinal, eu tenho tanta história pra contar. Que se um dia me batesse um vento de rebeldia, seria narradora da minha própria história: onisciente e onipresente.Escreveria um livro de no mínimo algumas centenas de páginas.
Mas minha infância é marcada por sorrisos de criança, que se não fossem de chocolate, seriam de açúcar. Fui daquelas crianças que se quebravam, mas permaneciam inteiras. Cair é aprender, não é? A gente cresce e continua caindo, só os tombos é que mudam. Era menina obediente, que inventava prazeres e brincadeiras. Comia o bolo todo e não só a cobertura. Era teimosa e tonta. Brincava sozinha de bonecas, brincava de cuidar - às vezes a gente sente necessidade de cuidar. Quantas vezes você pediu um cachorrinho, só pra cuidar dele?! Ou mesmo que seja um bichinho virtual - meio chaveiro -, também pra dar carinho e cuidados - me sentia um pouco menos sozinha com as bonecas. Que por vezes falavam comigo e pediam colo ou mamadeira. Os momentos mais divertidos - creio eu - foram aqueles que compartilhava um livro com uma voz, no rádio. Achava uma delícia livro - áudio com narradores que me faziam rir e sonhar. Comecei a gostar de ler, depois desse período solitário e mágico. Cheio de devaneios e histórias. A minha preferida era: A Fada Pluminha, que balançando as plumas do seu travesseiro, fazia a neve cair, em todo o mundo. De alguma forma, bem direta, essa história e tantas outras fizeram parte da minha. Me deixando descobrir quem eu era, e quem sou. Me sinto um pouco responsável por mim. Mas não completamente. Se não fossem as histórias, talvez seria eu uma devoradora de bolos. Ou então pessoa solitária cheia de bonecas, pedindo carinho. Mas foram os livros que me ensinaram a crescer, e me fizeram enxergar um mundo feio e cinza. A infância é tão bonita, porque você esquece o mundo, mas o mundo não esquece você. E ela acaba quando você - meio que sem querer - lembra que existe um mundo não tão colorido fora da sua casa, mas dentro de você. Porque não só você vive no mundo, mas o mundo vive em você.
Acho - e tomara não estar enganada - que foi durante a infância que fui mais feliz. Foi nesse período ligeiro e cheio de lições que trouxe meus sorrisos mais sinceros e alegrias mais completas. Crescer é perder. Perder inocência, esperança e bolos de cenoura. Quando crescemos o que nos restam são as lembranças - as poucas - que ainda guardamos com carinho, no bolso ou na caixinha de jóias. Recordamos das brincadeiras mais idiotas e das surras de domingo. Dos bifes que roubamos pra dar aos cães. E dos choros que não serviram de nada. A infância é repleta de sonhos de piratas, e beijos de maça - do - amor. De brinquedos e gargalhadas. O que nos resta é esperar que nem mesmo as memórias nos abandonem.
Lembro todos os dias - com carinho - dos sorrisos de criança.
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